órfãos de bar

É como nos sentimos. Para quem conhece ou para quem é cá da zona, já saberá eventualmente que o “nosso” bar fechou outra vez. Ainda ouvi noutro dia alguém dizer que “era o sítio onde se ia quando não se queria sair de casa” e é mesmo isso. Um bar é muito mais do que os copos ou o álcool que lá se compra e vende. E este era o nosso Cheers onde conhecia e cumprimentava 90% das pessoas que desciam aquelas escadas e lá entravam. O “nosso bar” tinha 27 anos com a mesma gerência, com um interregno de uns meses (em que fechou pela primeira vez) e reabriu com o mesmo dono pouco tempo depois e com uma pequena reforma nas paredes e na iluminação. Dessa primeira vez escrevi um texto mesmo bonito (modéstia à parte) com uma data de páginas que entreguei ao dono, a explicar porque é que era uma tristeza aquele sítio fechar. E a prova é que felizmente reabriu, durante mais um ano e meio. O “nosso bar” que agora fechou outra vez, era um bar alternativo, com princípios e tradições a mais para o tipo de negócio a que pertence. Nunca lá ouvi música má nem nunca, jamais, me faltaram ao respeito ou me trataram como mais um cliente. Tinha o balcão comprido e mais bonito de todos os tempos. Desde teenager que lá vou, primeiro à tarde, depois à noite. Sempre teve má fama – muito à custa da mentalidadezinha das pessoas cinzentonas, que afastam o que desconhecem/o que é diferente – do que de factos reais. Felizmente a minha mãezinha (uma pessoa com uma mentalidade muito à frente) educou-me no sentido de pensar sempre com a minha própria cabeça e não ligar muito à manada. Nunca lá vi nada que não tivesse visto noutros bares, pelo contrário até, apesar da má reputação que sempre lhe criaram. O “nosso bar” tinha uma clientela fiel (uns mais que os outros, claro) que ia dos 18 aos 65 anos e recebia no seu balcão senhores juízes lado a lado com cantoneiros camarários. Recebia pobres, ricos, freaks, intelectuais, metaleiros, actores, músicos, rockeiros, doutores, engenheiros, excêntricos, professores, bailarinas, geeks, e até hippies que vinham a pé e moram em quintas auto-sustentáveis (sim, eles ainda existem). Recebia todas as idades, raças e classes sociais da mesma forma e com o mesmo respeito. E isso, em 2016, é mais que bonito, é quase surreal. Lá, era o único sítio onde nos perguntavam se queríamos copo alto ou de balão, quantas pedras de gelo e se a medida de água tónica estava boa. Se tivesse disponibilidade intelectual e financeira para isso ainda lhe pegava, só mesmo para não desaparecer, mas não tenho a mínima queda para este tipo de negócio. Espantava a pouca clientela em coisa de duas semanas. Talvez ainda se faça dele uma associação à semelhança de outros espaços em outras cidades, o que era uma óptima ideia. No “nosso bar” cantei, dancei, disse poesia, ri, chorei, soube notícias boas, soube notícias más, passei discos, escrevi, pensei na vida, tomei decisões importantes e fui muito, muito feliz. Era – mesmo – uma segunda casa.

Talvez por isso acredite que, como só à terceira é de vez, ainda não seja.

 

imagem daqui.

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