A diva que há em mim, às segundas feiras, numa cave que cheira a mofo

Eu estudei música 12 anos. Música daquela clássica. Séria. Aprendi a ler música antes mesmo de ler letras normais. E toquei piano, apesar de a minha especialidade ser teoria musical e não instrumento. O piano levou-me sempre, mesmo que inconscientemente, a tocar sozinha. Ele estava quase sempre no centro da coisa e muito poucas vezes servi de acompanhamento a outros instrumentos. Na verdade o piano nunca foi muito a minha cena, descobri há muito tempo que o que eu gosto mesmo é de cantar. Aí a coisa vira natural, gosto de cantar tudo e mais alguma coisa, de canções infantis a populares. Fado, chanson, rock and roll. Sozinha ou acompanhada. No banho ou no palco. Com adultos ou crianças. De preferência sem microfone. Cantei em tempos obras a sério, fui solista, qual soprano esganiçada ao mais alto nível. E é a cantar que me sinto mesmo bem. Por isso quando me convidaram para uma pseudo-banda-amadora-de-amigos não pus grande fé na coisa, mas também não disse que não. Era para cantar, na boa! Bem…ainda não ponho grande fé agora.

Nunca tinha tido uma banda. E esta é a banda menos banda que existe. Não temos nome, são 3 guitarristas e moi même. Acho que bem lá no fundo somos só um grupo de amigos que gostam de passar algum tempo juntos – a conversar, a tocar músicas, a dizer disparates e a beber um pouco de vinho do Porto numa cave com cheiro a mofo. Chegamos a acordo entre as nossas disponibilidades e só nos restou uma possibilidade: ensaiar às segundas feiras à noite – o que já de si não abona nada na seriedade do projeto. (Mas que raio de banda ensaia à segunda feira? Estão a ver a coisa? Eu bem vos disse que não posso depositar grande fé nisto). Cada um escolhe dois ou três temas (que depois se tornam quatro ou cinco) e pronto: está dado o mote para o repertório. A maioria deles é deprimente ou muito específico, ou esquisito ou sei lá o quê. São temas ao nosso gosto, não servem para agradar a ninguém em especial. Na nossa banda – que não tem nome e ensaia à segunda feira – há o certinho (que quer os acordes, ritmos e síncopas todos direitinhos e que eventualmente saca do metrónomo), o estarola sentimental (que leva tudo à frente porque o que interessa é o feeling do momento) e o complicadinho (que tinha sempre um tema melhor para escolher em alternativa, e que tem de desencantar um acorde cifrado com montes de números porque não se quer sobrepôr ao dos outros guitarristas). Eu cá sou a menina no meio deles, gosto de pensar que sou “uma pequena diva”. Ahahahah! Canto e às vezes também toco pandeireta e maracas para encher acompanhar (ainda nenhum percussionista quis fazer parte da nossa magnífica banda que não tem nome e ensaia temas esquisitos à segunda feira à noite numa cave com cheiro a mofo – não consigo perceber porquê). Passo 2/3 do tempo a ouvi-los e ensaiamos no outro 1/3. Faço o trabalho de casa, estudo um bocadito, e de vez em quando lá saem umas coisas dignas de se ouvir. Não temos intenção de obter grande reconhecimento, nem de ganhar dinheiro com isto. Enquanto nos divertirmos está bom…pelo menos para mim! E depois sempre é mais giro estar lá com eles, do que em casa no sofá a ver qualquer coisa na tv.

Assim como assim, é segunda feira e podemos sempre puxar o Walking Dead para trás.

imagem daqui.

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