Boa Páscoa, queridos leitores!

The quote “Chicolate wasted” is originally from the movie Grown Ups, where Adam Sandler’s character answers a table of kids wanting to know what being “wasted” means and he tells them it’s a “hankering for ice cream”. A little girl then yells out “I wanna get chocolate wasted!”.

Podem ver este lindo momento aqui:

 

Os meus morangos

Isto de envelhecer traz coisas engraçadas. Eu que passei a minha infância e adolescência na quinta, nunca quis fazer nada de especial no que respeita à agricultura e floricultura e cenas ligadas à terra, enquanto lá vivi. Na verdade ninguém da minha família fazia nada com os canteiros que tínhamos lá em casa, nunca se plantou nem cultivou nada.

Aliás, não gosto nem nunca gostei de campo (a casa de que vos falo era apesar de tudo na cidade), não gosto de mosquitos e de animais sem espinha dorsal e nunca tive especial chamamento pela cena da natureza – apesar de sempre ter achado graça quando era tempo de colher laranjas, limões, maçãs, figos e maracujás, que era o que de comestível havia por lá e que se desenvolvia sem rega ou grandes cuidados. No entanto e porque isto de envelhecer traz coisas engraçadas, agora que vivo num apartamento há uns bons anos, parece que me deu uma vontade de plantar cenas e ter vasos, ter terra em casa e cultivar.

Sem falar nas plantas de casa – daquelas simplesmente verdes e decorativas que toda a gente tem, tudo começou por uma brincadeira com as suculentas e a beleza com que as vi crescer (aqui), as sementes de tomate (aqui), e agora dou por mim na net a ler artigos sobre rega, número de horas de exposição solar e temperaturas ideais.

Isto porque comprei dois morangueiros, na verdade não sei bem porquê, eu gosto muito de morangos mas nunca tinha tido morangueiros na quinta. Vi-os no supermercado cheios de florzinhas brancas – tão amorosos! e trouxe-os para casa, replantei e estão à janela por causa das 6 horas de exposição solar ideal. Rego-os generosamente de dois em dois dias, no fundo do vaso e não diretamente na terra, e estão à janela mas do lado de dentro, para que se mantenham os 20 graus mínimos.

Já tenho vários morangos de 2 centímetros em desenvolvimento, e todos os dias quando chego a casa vou lá vê-los, para saber se cresceram mais um bocadinho ou se ficaram vermelhos. Tenho já  um grande e vermelho que vou comer um dia destes e vos mostro na foto.

Não sei o que se passa comigo. Estou a amolecer. Noutro dia pensei em fazer compostagem.

Envelhecer traz coisas engraçadas.

  
 

noites de poesia #10

É verdade, fui à noite da poesia na primeira 5ª feira do mês, mas esqueci-me de colocar aqui uma jeitosa. Então cá vai ela, que ouvi declamada por um amigo e gostei muito. Do autor João Habitualmente, recorrente neste espaço (já aqui tinha colocado uma dele) mas é assim, quando se gosta lê-se, relê-se e volta-se a ler.

 

Agradecemos

nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram e
aos que ainda estão para vir

agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína
que casa c’o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d’aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nem nós também

agradecemos
ao white horse royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados

à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar

à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate e imortalizados
amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão

agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horriveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nosso dias
porque nosso será o reino dos ceús

aos ladrões e às putas
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida
e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos

juramos estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço

agradecemos
à arte à ciência à historia à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente

agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.

Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d’acordo com os padrões europeus

agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d’homens
e à escola
tropa de meninos

agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito

não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem
teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos

não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos

agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão

e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife

talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca

porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde

o que é um acto poético
de incomensurável estética.

João Habitualmente